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VOCÊ SE REINVENTARIA?

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Uma abordagem para um olhar mais acurado ao seu interno.

 

A pergunta que abre este texto parece boba. Afinal você pode responder: qual a razão para que eu me reinvente? Há várias razões. Nenhuma, se você se sente em uma tranquila zona de conforto e tudo na sua vida está bem funcional. Várias razões, se você sente que nessa altura de sua vida está precisando redefinir para que direção deve voltar a bússola do barco de sua existência.  

 

Pessoalmente acho incríveis as pessoas que são capazes de se reinventarem. Há pessoas que são tomadas por um surto de sinceridade e descobrem que suas vidas se tornaram obsoletas, estéreis, desérticas ou mesmo paradas em todos os sentidos. Elas são tomadas por uma reflexão mais profunda que pode ser gerada por suas mentes buscando sentido, por uma situação que acabou gerando uma profunda sacudida, ou mesmo, por quererem voltar a um eu mais autêntico e melhor.

 

Conheci Lyam em meados da década de ‘90 do século passado em uma breve temporada de estudos que fiz em Bonn, Alemanha.  Ele, um jovem belga, estava indeciso entre ser monge ou ser médico. Um belo jovem, saudável, inteligente, empático e muito comunicativo. Lyam pediu para conversar comigo e queria saber como fazer um discernimento pessoal mais profundo.

 

Eu, ainda jovem e adentrando na espiritualidade e no acompanhamento de pessoas certamente teria algo a dizer a ele. Sua busca por um caminho para sua vida de adulto era sincera e não queria brincar consigo mesmo e nem com seu futuro. Disse a ele que naquele final de Séc. XX um médico teria mais contribuição social a fazer que um monge. Caberia a ele escolher qual o valor social que queria dar a sua existência.

 

Ajudei Lyam a entender que uma escolha de um estilo de vida não seria também algo petrificado. Poderia ser desconstruída caso no futuro as coisas tomassem outros rumos ou adquirissem outros sentidos. Nossas vidas não estão apoiadas em bases sólidas e manter essa crença é questionável. Ele, com seu típico racionalismo europeu não foi tão acolhedor dessa visão de “vida sem bases sólidas garantidas”.

 

Doze anos mais tarde reencontrei o Lyam novamente na Alemanha. Ele agora era um médico exitoso. Um adulto realizado e feliz. Casou-se com uma bela mulher que também se tornou médica e trabalhavam juntos em um renomado centro de saúde na Bélgica. Me disse que a vida estava sendo muito generosa com ele e pensava em ter filhos logo mais. Tudo fluía bem e tudo era funcional na vida do Lyam. Infelizmente algo aconteceu e Lyam teve sua vida, segundo ele, “zerada” a partir da perda da esposa em um grave acidente de automóvel numa escura e fria manhã de inverno no sul da Europa.

 

Sua visão de mundo desandou. Desandou também sua vida que era funcional e tranquila. Lyam lidou de forma muito difícil com os dois primeiros anos do luto. Quem não? Foi acometido de uma depressão maior. O suporte medical e a terapia semanal ajudaram muito. Ele não tinha mais aquela energia para investir no trabalho de médico com todo o amor que fazia antes. Achou honesto ressignificar sua vida. Deixou a estabilidade que tinha na Bélgica e foi, como ele mesmo dizia, recomeçar tudo de novo em outra parte do mundo e em um trabalho totalmente diferente. Antes de entrar na faculdade de medicina tinha estudado algo de computação por dois anos.

 

Hoje Lyam é um mega profissional em IA - Inteligência Artificial - na Índia. Trabalha em uma empresa grande e que presta serviços em várias partes do mundo. Trocou o bisturi pelos algoritmos. Decidiu que ficaria sozinho por um tempo indeterminado. Creio que ainda está sozinho e agora já envelhecendo. Vinculou-se a uma fé budista (Buda Sakymuanie) e nos finais de semana dedica muitas horas à meditação, ao silêncio e ao treinamento de pessoas na espiritualidade que cultiva com muitos outros homens e mulheres. A sensação de pertencer a uma comunidade de pessoas que cultivam valores espirituais de iluminação e elevação do âmago deixa ele uma pessoa melhor e mais feliz.

 

A vida de Lyam ao ser “zerada” aos 40 anos trouxe a ele a involuntária necessidade de reinvenção. Não se reinventa a vida porque é romântico fazer isso. Reinventa-se na maioria das vezes com um certo preço a pagar. Muitas e muitas vezes o preço é bem alto. Por isso requer uma fantástica capacidade de coragem.

 

Pessoas inseguras, oscilantes e com baixa autoestima geralmente se submetem a uma vida que não é mais a vida que quer. Elas têm desejos de uma vida diferente, mas não têm forças para formatarem a nova vida. Nessa situação elas acomodam em certa mediocridade e deixam de serem generosas consigo mesmas. Há uma tendência dessas pessoas irem se petrificando por dentro. Conhecemos pessoas que aparentemente estão estabilizadas e passam uma visão de que tudo está bem. Na verdade, elas vivem uma representação. Se pudessem decidir o que gostaria de ser ou fazer tudo seria bem diferente.

 

A reinvenção é algo de movimento. Ao se reinventar entra em uma dinâmica que leva a novos espaços, novos valores, novas conquistas e até a um novo visual. Lyam trocou o jaleco de médico por camisas polos e as vezes pelo blazer e gravata quando marca presença nas reuniões de diretoria da empresa. A pessoa que se reinventa sabe que sua vida adquirirá um novo formato. Algumas gostam, como Lyam, de encontrar novos espaço e até fazer novos amigos.

 

Pessoalmente gosto da palavra reinvenção. É na verdade voltar ao vento. Aqui converso com acultura judaica que tem em Ruah = sopro divino, vento sagrado a força da criação ou da renovação no livro bíblico de Gênesis. Deus soprou nas narinas de Adão e o hálito de Deus, o sopro, deu vida ao Adão de barro. Um Adão que estava se petrificando, virando pedra, foi novamente humanizado. Com o sopro (vento) sagrado ele foi reinventado. Saiu da paralisia e tornou capaz de movimento. A vida é movimento. Tudo que para, fica estático ou não gera mais dinâmicas de sístoles ou diástoles (altos e baixos) leva a uma doença que tem na imobilidade sua causa mortis garantida. O que diz o povo é também ciência: água parada apodrece.

 

Em psicoterapia ou análise psicanalítica deparamos com situações humanas onde requerem para ontem a reinvenção. Muitos querem a reinvenção, mas não querem pagar o preço que é necessário e alto. Ficam em evasivas e em inalcançáveis objetivos e desejos. Não fazem um realista autoexame crítico. Apenas giram em torno do próprio eixo e não dão o start que é preciso para gerar o novo. Com medo e insegurança em vez de coragem e confiança, jamais se fará a reinvenção. Não é capaz de reestruturar-se.

 

A reinvenção é para quem se percebe consciente que está se petrificando e que não quer viver o restante de sua vida nessa condição. Então a pessoa se abre ao novo vento - sopro criador - e se permite a uma nova forma de ser e fazer. Reinventar-se é continuar melhor, mesmo que com dúvidas, mas jamais com medo.